mãe

Afoga-se na água que fez-lhe germinar
Arranca do seio o cio da vontade
Chora a lágrima que evapora antes de chegar ao queixo
Perfura a perna pra chamar atenção do impossível
Desperta na hora marcada pro desnudar da água fria no peito
Ouve mais que fala
Aprende mais que sabe
Engole o ar que rasga a víscera e desencadeia a culpa de toda reação
Desperta desnuda marcada de hora no peito frio d’ água
Na beleza que vem de fora do aceitável, da orgia e gemidos que explodem por debaixo dos padrões, observa-se no contra-senso seu sensível gosto maternal
Ovula-se ovula-se ovula-se
Perde, cala o ralo
Anoitece, deixe o mal ir embora
Bebe o ralo
Não consegue erguer os próprios olhos ante a sala vazia
Morde a barra de ferro
Positivo e negativo no mesmo plano
Pano pra manga
Desculpa pra loucura
Plano de fuga
Perde, cheira o ralo
Pano de fundo
Não consegue ouvir a própria voz vazia antes da sala
Amanhece, adormece no quarto
Um único dia não passa
Amanhece a vida
Perde-se no ralo
Perde-se no ferro
Entre o negativo e o positivo, perde-se
Perde-se a vida em um dia de sol 
faber castel
e derrepente percebeu que no meio da aula estava com seu antigo lápis, velho guerreiro,fincado no seu pescoço.
-mas como é possível?
sem dor, nunca houve dor, o que sempre persistiu foi a dúvida
não há sangue e nem sujeira
- será que alguém percebeu? deixo ou tiro o lápis do pescoço?
aula continua, tempo continua.
o lápis no pescoço foi apenas o início de uma medida drástica.
discípulo
quando o discípulo esta pronto o mestre aparece e leva tudo embora
Mauro
ele trabalhava em uma empresa de construção civil no subúrbio, porém o escritório da referida empresa era acomodado no centro da cidade, o mesmo escritório que Mauro uma vez por semana era obrigado gentilmente visitar e apresentar relatório de suas atividades levianas.
Mauro adorava o centro, gostava mesmo, foi paixão a primeira vista, vista que desde o curso de inglês que fizera em 96 não lhe fazia esquecer.
“formigas, são todos formigas cantando” me dizia ele esfuziante no largo da carioca.
Eram os sebos, o jardim do BNDS, a sujeira universal da praça Tiradentes, os patos e gansos do campo dos afonsos, tudo delirava a mente e a sanidade de Mauro; Da obrigação da visita ao escritório ele transformou e deu cabo a uma viagem transcendentalista regada a fofura.
Em uma de muitas destas viagens Mauro por loucura, por solidão ou por visível vingança procurou sem encontrar o amor fácil, o amor alheio, o amor de um só.
Love paid
Era uma escadaria bem antiga que só poderia ser ocupada por uma pessoa, para subir ou descer.
Lá em cima ante-sala (com hífen e tudo) úmida e carcomida pela própria desgraça temporal, um sofá e uma janela aberta.
- vai uma cerveja?
-não obrigado.
-não o senhor não entendeu, a cerveja vai junto no “pacote”, pelo menos a primeira é de graça.
-ah, mesmo assim não e obrigado.
Mauro sua enquanto espera a sua vez, já visivelmente arrependido e com vergonha até do gordinho da cerveja, calcula a altura do prédio para uma possível fuga pela janela aberta, sabendo se tratar de três andares arrisca por em risco a fratura de algum membro; No meio de sua divagação, Mauro é trazido de volta à realidade pelo “empresário” do lugar (que de empresário só mesmo o título e a alcunha).
- rapaz é a sua vez!
- Mauro faltando-lhe pernas, levanta cambaleando no mezanino e tapete que compõe o velho prédio , conseguindo em fim alcançar o cubículo.
Time
Time
Time
lost time
enquanto Mauro desce a escada unitária de uma pessoa só, algo incrível lhe invade o peito.
Mauro é tomado por uma imensa euforia que logo ascende-se a extrema felicidade, encharcado por tal domínio ele gira em torno de seu próprio corpo uma meia volta quase completa tomando o caminho contrário ao de partida; vencendo a escada de dois em dois degraus ele logo está novamente na ante-sala (com hífen e tudo) úmida e carcomida; Sem concatenar algo plausível e racional Mauro invade o cubículo e encontra a ‘flor “se refazendo e ajeitando (ou o contrário) a cama ainda sem fôlego.
(a flor)- você esqueceu alguma coisa, sempre esquecem, foi carteira, se for deve estar no chão ou na gavetinha aí do lado.
(Mauro)- não ! , não esqueci minha carteira.
(a flor)- então o que está fazendo aqui; Se o senhor não se retirar vou chamar o “empresário”.
(Mauro)- calma, eu tenho de dizer-lhe uma coisa
(a flor)- seu louco, tarado. Ahhahahhhahh (gritando!)
(Mauro)- calma é que eu te amo, casa comigo; agente pode largar tudo e morar em campo grande(MS), eu tenho guardado algum dinheiro.
(a flor)-ahhhahahhahhaha (ainda gritando) socorrooo.
Mauro completamente aturdido e já decido a tomar o rumo de volta prepara-se para partir, quando aparece o “empresário” e de súbito o “empresário” empresariou e pos Mauro pra fora do lugar.
· moral e contexto : – Mauro não tinha esquecido sua carteira, Mas acabou sendo obrigado a esquecer com o “empresário”
ele ainda sofre o amor pela “flor”, mas ama mais a si mesmo.
poema ralo
O básico do barro
No começo era falho
Naquilo que se constrói e por outro lado esfarela-se
Em um segundo infinito o primeiro espera sua vez (pano de prato)
A simples viagem que nunca conclui
É chegada a hora do acerto de contas
No básico do básico o começo foi um ato que gira e cria a vida
A vida veio do movimento que gira
A vida gira; A simples viagem que não conclui
Um segundo infinito
O primeiro ilumina
A hora do acerto
Um ato que cria
O movimento da vida
No começo era básico
O básico do básico
Laura revis-tada
Laura percebe que seu livro já está no fim e pensa enquanto ajeita a franja que lhe cai nos olhos
- “terminar um bom livro é como terminar um caso qualquer, no começo o de sempre é a maior novidade do mundo ,mas é só continuar a leitura ou completar o primeiro ano e pronto, o livro vai de mansinho ficando pegajoso e até previsível; Incrível essa barreira plasmada e indiferente que nos pega de jeito e derrepente no meio do banho quando acaba o sabonete; E sempre termina na apoteose de acontecimentos como todos os outros casos (livros)”.
Laura visivelmente preocupada com o fato de ser verdade, preocupada com a proximidade da idade padrão para casamentos, preocupada com a mãe que sempre liga perguntando:- e o meu netinho quando vem? Preocupada também com os amigos que devem pensar horrores (ela deve ser exigente, só pode ser isso que afugenta os namorados);Tomada por inabalável refulgência interior, Laura para de ler o livro que já estar por terminar, observa a lâmpada do seu quarto que oscila entre o claro e o super claro, e toma a derradeira decisão: -” A partir de hoje só irei ler a introdução , as favas com os preâmbulos e os desdobramentos das personagens, o resto eu mesma imagino; farei isso com todos os livros que perdidos,sozinhos, apaixonados e desiludidos possa vir cair em minhas mãos”.
Bom em se tratando de relacionamentos ela não é boba , Laura sabe que precisa de um pouco mais de tempo.
Pedacinho
Um pedaço de mim em um inseto
Um pedaço de mim no quadro de vidro
Um pedaço de mim no oriente
Um pedaço de mim no porta copo
Um pedaço de mim no ladrilho do banheiro
Um pedaço de mim por traz do significado
Um pedaço de mim no ensaio e outro na loucura
Um pedaço de mim na ciclovia
Um pedaço de mim não come carne e o outro também
Um pedaço de mim não classifica
Um pedaço de mim amanhece
Um pedaço de mim esgueirando
Um pedaço de mim caminha
Um pedaço de mim se perde
Um pedaço de mim flutua
Um pedaço de mim me perde
Um pedaço de mim adormece
Um pedaço de mim no universo
Um pedaço de mim em você e um outro pedaço em mim mesmo
Deixem minha patera em paz
Blocos quebram-se
Pedras quebram-se
Muros quebram-se
Vidas quebram-se
Dor quebra-se
Sorriso quebra
Sons quebram-se
Liberdade quebra
Loucura quebra
Lugares quebram-se
Passado quebra
Futuro quebra-se
Vazio quebra
Insônia quebra
Noite quebra-se
Cotidiano quebra
Ser humano quebra